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CÁ ENTRE NÓS #4

2018

 

Edital de Ocupação para novos artistas

Em um evento como o Cá Entre Nós, exposição coletiva organizada e produzida pela OÁ Galeria, a seleção de artistas via edital de convocação expande o sentido de curadoria para uma deliberação crítica colaborativa que deve, mais do que organizar e mediar uma exposição, satisfações críticas ao público e aos artistas envolvidos no processo de convocatória.

Os 10 artistas selecionados, ou autosselecionados como gostaríamos de dizer, encamparam, a partir de diferentes espaços geográficos no Brasil e no mundo, discursos e pesquisas poéticas em duas ordens narrativas que se tocam: o lúdico e o político na arte contemporânea. Não são abordagens novas, sabemos. Porém, entendemos que não se tratam de visões de mundo isoladas, e sim da própria urgência do lúdico a partir de questões que, se antes marginais, agora se põem como vetores culturais dentro de uma realidade cada vez mais violenta e reativa à pluralidade de vozes. Resta-nos o restrito, porém importante papel de sentir e tornar público o desejo de reflexão, por meio da arte, de questões sociais tão importantes quanto a própria necessidade de reflexão.

A exposição absorve e expande diferentes formas de abordagem dentro das temáticas propostas: o corpo, o feminino, o movimento LGBTQ, memórias, lugares e afetos; a melancolia, enfim, alegorias da perda que resgatam poeticamente vozes sociais, que se imiscuem em diferentes técnicas: fotografias, desenhos, vídeos, livros-objetos. 

Se há um papel mais objetivo aplicado ao conjunto expositivo foi o de organizar e potencializar discursos artísticos em microcosmos expográficos intersubjetivos, de sorte a produzir um território discursivo de bordas invisíveis para que o público possa expandir seus próprios limites perceptivos sobre realidades culturais tão complexas. Tais limites não são gerados pela expografia, e sim, por essas bordas, que desafiam tanto os limites da arte quanto do sujeito que a completa.​​

Felipe Barcelos de Aquino Ney

Pesquisador em História e Crítica de Arte no PPGAV/EBA/UFRJ e

membro da banca avaliadora da do Edital de Ocupação do Cá entre nós #4.

ARTISTAS PARTICIPANTES:


OCUPAÇÃO INDIVIDUAL

Joelson Bugila (SP/RJ)

EXPOSIÇÃO COLETIVA

Ale Gabeira (RJ/ES) e Raísa Curty (ES) - Residências Artísticas Movéis

Bruno Novaes (SP)

Charlene Bicalho (ES)

Estevão Parreiras (GO)

Henrique Marques (MG)

Julia Paccola (SP)

Lia Krucken (Alemanha) e André Feitosa (Portugal)

Luisa Callegari (SP)

Rafael Segatto (ES)

 
 

RESIDÊNCIA MAURICIO PARRA

ESTAÇÃO CULTURAL DO MOSTEIRO ZEN MORRO DA VARGEM, IBIRAÇU - ES.

Um projeto de residência para mim é mais a ideia de uma experiência fora do ambiente do ateliê – local onde estamos acostumados a trabalhar, onde já conhecemos a luz e está tudo relativamente ao alcance – do que a realização de um trabalho em si. É mais sobre viver essa experiência e ver como ela ecoa na minha pintura.


Minha primeira experiência com a pintura de paisagem de observação direta foi em uma residência realizada em 2013 em Gludsted, na Dinamarca. Desde lá a paisagem foi ocupando lentamente um lugar dentro do meu trabalho. Dois anos depois, em 2015, tive a oportunidade de participar de outra residência em Marianowo na Polônia. Essa segunda viagem me permitiu olhar mais atentamente para o que acontecia ali e fui constatando algo que na primeira viagem não pude absorver muito claramente: A pintura de paisagem de observação direta é ao menos para mim muito mais sobre estar ali pintando que sobre o que se vê. Os cheiros, a luz, a variação de temperatura, os sons, tudo isso prevalece ao trabalho. Quando começamos uma pintura assim, o céu está de um jeito diferente de quando terminamos, as horas ou dias se passam e as luzes, as sombras e as cores mudam. E o que temos no final é uma paisagem que nunca vai existir realmente, ela é a soma de todos os tempos que estivemos diante dela somadas às escolhas que fizemos.

Como não sei qual rumo o trabalho vai tomar em uma experiência dessas, gosto de levar diferentes suportes para trabalhar e deixar que a pintura se guie mais de acordo com o que estou vivenciando do que com alguma ideia ou projeto pré-concebido.

Essa será minha primeira residência aqui em nosso solo, escolhemos ir de carro, acho que a residência já começa ai. Poder ver a paisagem mudando, os relevos, o clima, as comidas e os sotaques. Enfim, acho que residência é isso, o deixa vir.​

Mauricio Parra

Artista residente

 
 

ANTIANATOMIA TROPICAL

EXPOSIÇÃO-DIÁLOGO DE LUCIANO FEIJÃO E ROSANA PAULINO

ANTIANATOMIA 

O aniquilamento secular e ininterrupto da população negra brasileira, tanto nos seus aspectos físicos e econômicos, quanto na tentativa política-ideológica de manter ativo e atualizado o projeto moderno de branqueamento do país, continua sendo perpetuado através de postulados oriundos das ciências (na explicação de certos fenômenos sociais) e, por conseguinte, dos tratados de anatomia, como nas atribuições fenotípicas e conceitos de raça.


Tais tratados convertem por iguais todos os corpos, independente de seus traumas. Não indicam doenças, não propõem curas, não exprimem resistências. Estudos anatômicos afundam os sujeitos na impessoalidade mais vil, tornando-os disponíveis para que se prove toda e qualquer fundamentação negativa sobre si, sobre sua comunidade, sobre seu futuro. 


Ao final da escravidão brasileira o que se projetou foi a sistematização da eugenia enquanto política de Estado, ou seja, uma forma de racionalização que sedimentou o racismo como padrão de normalidade. A eugenia e as configurações anatômicas foram determinantes para subjugar uma “forma negra” (como na história da Vênus Negra e tantas outras). Evidenciar uma antianatomia é, portanto, sobressaltar o conceito de que exista uma força para além do aprisionamento dessa forma.


Se há um corpo negro por detrás da tragédia, é antianatômico. Se o corpo negro contempla o cenário de sua própria emancipação, certamente é antianatômico. Se a “mão anônima” modela de maneira universal uma razão escrava, a “mão manifesta” – contramão – desenha uma razão negra antianatômica. A luta da população negra será sempre torcida, desmembrada e antianatômica. 


Antianatomia é anti-fisionomia, é trabalho de investigação que, através dos desenhos de homens e mulheres negras, sugere um caminho de não-objetivação. É apostar nos vários planos desarmônicos que constituem os corpos e que, ao se sobreporem ao longo dos processos emancipatórios, não descartam planos anteriores… É o passado vivo no presente, é o espectro da subjetividade racista perpassando os que se consideram não-racistas. 


Os desenhos da série Antianatomia são de tendência “subcutânea”, assinalando tudo o que está sensivelmente debaixo da pele como músculos, nervos, ossos, sangue, tensões, desígnios. Também comprova que os corpos negros, neste contexto, não podem ser enquadrados em cânones, linhas diretrizes e métodos de abordagens mais genéricos e uniformizantes, pois precisam destruir toda a lógica que define a “lição de anatomia” clássica como medida do mundo, para dar lugar a uma dissecação que faça transbordar o sentido das lutas étnico-raciais locais.​

Luciano Feijão

Artista

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METÁFORAS DO VAZIO. O PARAÍSO TROPICAL DE ROSANA PAULINO.  

Em uma trajetória artística construída de forma coerente e marcada por notável consistência, Rosana Paulino tem se dedicado em suas produções à reflexão sobre a invisibilidade e o não reconhecimento dos negros, sobretudo, das mulheres. Em muitas de suas obras o passado, seja através de fotografias de familiares ou por registros do período colonial, parece ser o grande mote para entender as profundas ranhuras e feridas herdadas da escravidão que teimam a acompanhar a população negra até os dias de hoje. 

Na série Paraíso Tropical, o passado é evocado por Rosana Paulino por meio de imagens de mulheres escravizadas cujas lentes dos fotógrafos das colônias perpetuam em posições fixas e rígidas, descortinando quem detém o domínio sobre seus corpos. O mesmo domínio torna-se evidente quando a artista aprisiona as mulheres em herbários, simbolizando a necessidade da ciência de classificar e hierarquizar o mundo, o que se estendeu aos povos de origem africana. 

Com grande sensibilidade, as mulheres apresentadas por Rosana Paulino não têm rosto, no seu lugar fica um incômodo vazio. Ao remeter ao passado, esse vazio se faz metáfora para o anonimato, para o esvaziamento da história individual de cada uma dessas mulheres escravizadas. No presente, esse espaço vazio é como a projeção de um espelho, onde as mulheres negras se veem e se reconhecem em uma imensa dor compartilhada. 

Rosana Paulino não parece interessada apenas em impedir que a memória do período da escravidão seja esquecida e apontar que esse longo e terrível momento da nossa história esteve respaldado pela cientificidade. A artista almeja, sobretudo, denunciar como seus nefastos desdobramentos sobrevivem e atuam no presente. E sugere que nos perguntemos de quem e para quem é esse Paraíso Tropical. 

Juliana Bevilacqua

Curadora da mostra “Metáforas do vazio. O Paraíso Tropical de Rosana Paulino”

 
 

LABORATÓRIO DE MEDIAÇÃO CRÍTICA EM ARTE

POR CARLA BORBA E LUDMILA CAYRES

O objetivo geral do programa, concebido por duas artistas-educadoras com experiência institucional em mediação cultural e curadoria educativa, foi observar, criar e vivenciar o potencial crítico dos processos educativos em arte. A proposta é que no laboratório fosse desvinculada a ideia do educador do espaço cultural como um agente “explicador da arte” para pensá-lo como um agente crítico, já que nesses processos educativos o público é atravessado pelos seus questionamentos e afetos perante a exposição ou obra de arte em questão. O olhar crítico do educador faz com que a sua prática se torne cada vez mais propositiva, visto que geralmente ela é desenvolvida a partir de eixos conceituais e processos de curadoria, se constituindo como um lugar de potência para a experimentação não só reflexiva, mas também ativa e criativa com a arte.