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NUNCA FOI LOGO ALI

Em dois artistas e duas trajetórias, dois corpos de trabalho se apresentam ao público; colidem entre si e com a galeria; aproximam-se e verificam semelhanças; para depois se distanciarem e provocarem contraste. Numa dinâmica dual, inacabada e dialógica, os trabalhos por ora selecionados invadem e contaminam o espaço de exposição — espaço esse que é físico, construído material e socialmente. É o que, em nosso entender, converge para a identificação de um espaço de experiência ou, em livre tradução, “espaço experienciado”, conforme ensina o tratado seminal do arquiteto e filósofo alemão Otto Friedrich Bollnow, obviamente que aqui associado de forma indelével à realidade brasileira, em seus múltiplos e graduados contextos e territórios.

Vivendo e trabalhando em Vitória (ES, Brasil), Raquel Garbelotti (Dracena, SP, Brasil, 1973) e Yiftah Peled (Tivon, Israel, 1964) — colegas professores da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) — valeram-se de forma consciente das suas condições estrangeiras ao lugar, ao mesmo tempo em que, desvinculados de uma origem ou pertencimento, espelharam em suas produções artísticas o caráter transitório de suas realidades vivenciadas e de suas próprias ficções na maneira como operam a esfera pública.

Ante o exposto, os trabalhos que se desencadeiam na galeria, deflagrando movimentos e contaminações, reiteram essa transitoriedade, ao mesmo tempo em que aludem aos impasses escamoteados por uma identidade moderna local que foi ali construída e forjada. Em destaque, encontra-se o estêncil de Yiftah, denominado Digestão Pulmonar, que se apodera das superfícies e planos da galeria e adere à arquitetura por meio de sua forma quase alienígena, e cuja materialidade foi concebida, entretanto, a partir da folha de coentro, planta e alimento naturalizados na cultura capixaba. A tinta da figura que impregna o ambiente permite ainda outras camadas de leitura, pois apresenta em sua composição um minério tóxico que veio à tona com a corrida desenvolvimentista local. Em contrapartida, os cobogós de barro e cimento desenvolvidos por Raquel atravessam essas mesmas superfícies, causando interrupções, abrigos, proteções e sombreamentos. Por contraste, suas linhas transversais insinuam novos planos e atravessamentos, seus formatos e alterações de escala deturpam a funcionalidade anterior do objeto, ao mesmo tempo em que impõem ao visitante uma fruição dinâmica. A própria designação para os trabalhos da série intitulada Cobogó sugere a subversão de seu valor e função. No cerne dessas intervenções está a capitulação e a definição de uma modernidade ambígua, transitória e periférica.

Por conseguinte, propõe-se um exercício reflexivo de binômios e contrastes que podem ser enumerados para a definição de um projeto moderno outro, instável e aderente à percepção do espaço construído, e que podem servir de categorias para uma análise dos universos poéticos apresentados, que por sua vez investem no binômio “homem e espaço”. São eles: Origem e herança; razão e adaptação; programa e acaso; construção e ruína; desenvolvimento e destruição; monumento e antimonumento; originário e estrangeiro; autóctone e alienígena; ortogonalidade e sinuosidade; ordem e caos; invenção e cópia; citação e criação; memória e esquecimento; técnica e precariedade; harmonia e contraste; projeto e experiência; desenho e tentativa; corpo e máquina; temporário e permanente; natureza e construção; familiar e estranho; pureza e contaminação; início e fim; voo e queda; transitório e permanente; movimento e suspensão, entre muitos outros.

Nesse campo semântico impreciso e transitório incidem, portanto, as ações dos artistas. No sentido figurado, o “entre lugar” em que seus trabalhos atuam coincide com a própria dinâmica transitória de suas vidas, uma quase imagem especular do que se vivencia. É esse ambiente em suspensão que se visualiza nos filmes da série AMC (Arquitetura Moderna Capixaba), produzidos por Raquel e representados na exposição por dois exemplos: o Clube Libanês, da arquiteta Maria do Carmo Schwab, e a escola Ernestina Pessoa, do arquiteto Francisco Bolonha. Como janelas que se descortinam na galeria, os edifícios são ilustrados de forma impassível, num olhar contínuo de baixo para cima, deixando o espectador, em meio à reiteração dessas imagens, numa zona de desconforto e em estado de suspensão. Nesse mesmo levante em suspenso, Yiftah nos surpreende com imagens estranhas de um habitat diverso, por vezes cenário e por vezes alienígena, todas elas distribuídas ao longo do espaço expositivo. Entre realidade e ficção, conformam-se outros monumentos, os quais o artista define como Involuntários. Essas imagens construídas conformam um projeto mais amplo, denominado Invasão Alienígena.

Apresentam-se, enfim, formas de apropriação e uso literal e figurado da janela ou do quadro: se Raquel desnuda as ambiguidades do espaço construído local e reforça a importância de rever uma razão identitária e histórica no espaço construído, Yiftah ficciona sagazmente a experiência espacial, propondo-nos a participação na plataforma do Turismo Definitivo. Esse agenciamento promovido pelo artista nos implica naquele contexto, sugerindo adiante a formulação de outras narrativas e ficções. Os próprios binômios já mencionados balizam nossa percepção.

Em última instância, muito além da ideia de caracterização do espaço — em termos de etimologia, conceito, representação, ciência e experiência —, há em suas pesquisas a vontade poética comum de enveredar de forma profunda na estrutura interior do que se materializa como espaço concreto da experiência. De forma mais direta, é esse o espaço da realidade do mundo, o espaço de ação. Ao ter a história em mente, entende-se, portanto, a importância de evocar as palavras finais de Posição e Programa, de Hélio Oiticica, que já em 1966 conclamava o erguimento de algo válido e palpável, ou seja, a nossa própria realidade. Descortiná-la, trazê-la à tona, subvertê-la e resignificá-la parecem ser boas iniciativas para a arte hoje, e tanto Raquel quanto Yiftah sabem muito bem disso.


 

Diego Matos, out. de 2017.